Velhos e novos imperativos: ensaio sobre ética e sustentabilidade

Em um brevíssimo recorte da história da filosofia, podemos perceber as diversas contribuições que diferentes filósofos fizeram para a área da ética. Desde Aristóteles até Peter Singer, descrevendo um itinerário que vai da ética das virtudes, passa pelo hedonismo, pela ética do dever, pelo utilitarismo. Qual dessas teorias, porém, reflete sobre a natureza? Não podemos negar uma pergunta subjacente a essa, cuja resposta parece necessária para que respondamos com prudência a anterior: é necessário incluir a natureza em uma discussão ética?

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Em seu Princípio da responsabilidade, o filósofo Hans Jonas afirma que as teorias éticas anteriores não dão conta dos problemas enfrentados na contemporaneidade. Esta constatação se fundamenta no incrível avanço da técnica, e podemos presumir também tecnológico, que, segundo o filósofo, tornou a natureza vulnerável.

Essa insuficiência das anteriores teorias éticas, porém, não quer dizer que não nos servem. Ao contrário, Hans Jonas defende que elas vigorem em uma esfera cotidiana da vida humana. Em outras palavras, os conceitos de justiça, caridade e honra não perderam seu significado, assim como não deixamos de ser pessoas justas ao praticar atos justos, nem deixamos de ser corajosos ao exercitar nossa coragem. Hans Jonas está chamando atenção, porém, que a ética concebida nesses termos não consegue se expandir para além de nossos dilemas diários.

A questão é precisamente essa: o problema da vulnerabilidade da natureza não se resolve em nossas ações cotidianas. Em outras palavras, não são nossas ações individuais que farão diferença, não é ao deixar de jogar papel de bala no chão que a natureza se tornará resistente à técnica e à tecnologia.

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O filósofo evoca a moral kantiana para fundamentar sua proposta de incluir a natureza no debate moral. Relembra o imperativo categórico do Kant segundo o qual devemos sempre “Agir de tal modo que possamos querer também que a máxima de nossa ação se converta em uma lei universal”. A moral kantiana é bastante complexa e não tenho a pretensão de torná-la clara nessas poucas linhas. Mas, para que o leitor não deixe de entender ao menos superficialmente os desdobramentos de sua proposta, tentarei usar um exemplo.

Pensemos numa pessoa comum, que às vezes mente. Suponhamos que essa pessoa, que chamaremos de Jarbas, tenha esquecido de comprar presente para sua mãe em seu aniversário. O que pode fazer Jarbas nessas circunstâncias? Ele pode ser honesto e dizer que se esqueceu de comprar, o que talvez magoe sua mãe e o faça se sentir culpado. Ou pode dizer que já comprou o presente, mas que o correio ainda não entregou. A segunda opção se trata de uma mentira inocente, a qual não terá maiores ou pesarosas consequências. O que deve fazer Jarbas?

Segundo Kant, Jarbas deve dizer a verdade. Por quê? Lembremos seu imperativo: agir de tal modo que possamos querer que a máxima de nossa ação se torne uma lei universal. Não podemos aceitar que mentir se torne uma lei universal, independente das circunstâncias. Se ela assim fosse, poderíamos imaginar uma sociedade constituída somente por mentirosos, na qual não haveria confiança alguma entre as pessoas.

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Evocando o imperativo categórico, que se aplica à esfera individual, vale dizer, Hans Jonas pretende oferecer uma reformulação que dê conta do desamparo que sofre a natureza na esfera ética. Assim, ele propõe: Aja de tal modo que os efeitos de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana autêntica na Terra.

Hans Jonas não é inocente ao propor tal imperativo. Quem conhece o filme Wall-E, visualizou um cenário no qual nosso desenvolvimento tecnológico se tornou tão presente em nossas vidas que dizimou a vida na Terra, ao ponto de humanos não poderem mais sobreviver nela. Assim, a população viaja em uma nave espacial aguardando que a Terra possa ser novamente habitada. Hans Jonas, imaginando ou não esse tipo de situação, quer evitar o cenário de Wall-E. Nós devemos agir de tal modo a preservar uma condição digna de se viver aqui na Terra. Por “nós”, é bom lembrar, Hans Jonas não quer referir a indivíduos. Ao contrário, espera que esse novo imperativo categórico se dirija precisamente à esfera coletiva, que se converta em, pelo menos, uma política pública.

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