Compreendendo as obras de Arte!

O recente cancelamento da exposição “Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, no Santander Cultural de Porto Alegre, trouxe a tona a discussão sobre o que é arte e qual o seu papel na nossa sociedade.  A Pesquisa Anual de Museus (PAM) mostra que apenas 4,4% dos museus brasileiros recebe anualmente mais de 100 mil visitantes. Uma realidade totalmente diferente dos 2,5 milhões/ano de visitantes do MoMa em Nova York.  Apensar disso, o interesse por arte vem crescendo, a PAM também mostra que esse mesmo dado a três anos atrás era de 3,7%.

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É verdade que esse crescimento é pequeno, mas é importante que episódios como esse tragam essas discussões e nos façam refletir sobre nossos hábitos. O que me parece, é que nós brasileiros entendemos pouco de arte e por isso nossa frequência em museus é tão baixa. Infelizmente, a arte ensinada nas escolas é muito básica, quando muito, se resume a estudar a história, os movimentos artísticos e seus participantes. Algo muito importante, e que é deixado de fora das aulas de arte convencionais, é ensinar a ler imagens. Isso se reflete no entendimento e compreensão das obras.

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Hoje, na era da informação, somos diariamente sobrecarregados de imagens. A arte, em sua maior parte é feita de imagens. Em que momentos paramos para ler, interpretar e compreender seu conteúdo? Será que as obras expostas no Santander Cultural foram corretamente interpretadas? Ou mais, existe o certo e o errado?

Existem muitos métodos de leitura de imagens, o autor Michael Parsons apresenta um método fácil, e em minha percepção, muito pertinente a esse caso. A teoria de Parsons é baseada nos estágios cognitivos, ou seja, nossa compreensão de uma imagem é fortemente influenciada pela fase cognitiva a qual pertencemos. Muitas vezes ligada a nossa idade, porem ainda com mais relação com nossa bagagem e experiência visual. Em seu estudo, apresentado no livro Compreender a Arte, o autor explica os 5 estágios cognitivos, que resumo no quadro abaixo:

Quadro 01 – Estágio de Desenvolvimento por Michael Parsons

Primeira Estágio Neste estágio as obras são estímulos para boas experiências. Não há preocupação sobre seus objetivos, se representam algo, se são ou não figurativos. O primeiro estágio se limita a perceber as cores, formas e fazer associações livres, não podendo compara-las a nenhuma experiência externa.
Segundo Estágio O foco do segundo estágio é a temática da obra, toda a organização para a construção da representatividade, por isso o realismo é importante nessa fase do desenvolvimento. A beleza está associada ao figurativo realista, pois nesse estágio damos importância a habilidade e a riqueza de detalhes.
Terceiro Estágio Este é o primeiro estágio em que se consegue ver uma maior autonomia de compreensão cognitiva, pois seu foco é a expressividade. Nesta fase do desenvolvimento o objetivo é a experiência causada pela obra, os sentimentos expressos e aquilo que é absorvido pelo indivíduo.
Quarto Estágio O quarto estágio está ligado a forma e ao estilo com o qual a obra analisada foi feita, nesse aspecto, ele ganha uma compressão maior de contexto alargando as possibilidades de interpretação.
Quinto Estágio No último estágio de desenvolvimento cognitivo se percebe a necessidade de percepção de valor, se faz um juízo sobre a obra. Além da capacidade de discutir, questionar opiniões e promover um processo de diálogo sobre o tema, a obra, a estética e até o contexto.

Tendo isso em mente, ao buscar compreender as obras, Parsons aborda 4 tópicos que são analisados sob a ótica de cada estágio. Esses tópicos são: a temática, a expressividade, meio de expressão e o valor. Assim, as fases de desenvolvimento cognitivo se relacionam com os elementos de analise, formando uma rede de compreensão muito mais ampla do que teríamos obtido se apenas julgássemos por ser belo, ou se retrata ou não a realidade.

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A arte tem um papel muito importante na nossa sociedade. Ela cria um ambiente democrático e livre para discussões, interpretações e contestações. É uma ferramenta, sem igual, para reflexão de conceitos, hábitos e realidade. Pois somente através dela é que conseguimos subverter aquilo que muitas vezes está arraigado em nossa cultura e nos passa despercebidos. Por isso é de imensa importância protege-la, repudiando a censura e permitindo o debate, sempre.

 

 

 

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